Dicas para trabalhar embarcado em navio



Santorini, 14 de outubro de 2010 - 11:30 (hora local)
Trabalhar embarcado pede concentração e interação / Luck Veloso

Após cinco meses trabalhando diariamente a bordo de um navio, chegou a hora de fazer um 'balanço' dessa maratona toda. Até porque quando iniciei nesse tipo de trabalho, sempre buscava informações sobre isso na internet e muito pouca gente contava como era realmente trabalhar embarcado, por isso vou tentar sintetizar aqui tudo o que venho vivendo ao longo desse período, que pode parecer curto mas quando se trabalha diariamente e conhecendo várias cidades (e países) ao mesmo tempo, tudo parece maior.

Vou começar com as recomendações:

- Quando for embarcar em uma viagem a trabalho por um longo período, leve pouca coisa, de preferência quase nada, somente o necessário. Você vai querer comprar muitas coisas e pode ficar sem espaço ou ter que voltar com várias malas, o que custará muito, caso você não retorne no próprio navio fazendo o chamado 'crossing'.

- Não reclame. Você escolheu este trabalho, lutou por ele, fez exames, fez um curso de STCW (obrigatório), ou seja, você quis estar ali, então aguente firme sem queixas, porque problemas surgirão, isso é certo, mas nada comparado ao dia a dia em uma cidade grande, pois você estará visitando cidades maravilhosas em que todos os seus amigos desejariam pisar algum dia na vida.
O bom convívio dentro do navio é fundamental / Luck Veloso em Veneza - foto de Herbert Longo
- Faça amigos. Você ficará vários meses longe de todas as pessoas que ama e respeita, então tente conquistar novos amigos, isso é muito fácil em um navio. Todos nos vemos todos os dias e a convivência deve ser a mais pacifica possível. Agrade às pessoas e terá um excelente retorno, consequentemente seu trabalho será muito mais produtivo.

- Economize. Tente não utilizar muitas vezes o seu "crew pass.", que é um cartão de identificação que você receberá assim que embarcar, que lhe permite utilizar certa quantia dentro do navio, que será descontada de seu pagamento no final do mês. Por ser um cartão de crédito interno, você poderá sair gastando sem sentir, já que não vê o dinheiro saindo, mas a surpresa ao final do mês pode ser desagradável.
Divirta-se mas com moderação, afinal, é um trabalho / Luck Veloso em Istambul  foto de Paula Santos
- Não beba em excesso. Quase cometi este erro no primeiro mês embarcado, mas minha posição domo DJ me permitia fazer isso, porem é um erro grave. De preferência não beba a bordo e se beber, dependendo do seu cargo, faça-o no Crew Bar, que é a área destinada aos tripulantes do navio. Isso evita problemas com varias pessoas, incluindo com as que poderão te contratar novamente em um futuro próximo. Além disso, lembre-se que você estará na maioria do tempo em alto mar. Nunca pensamos no pior mas imagine um naufrágio e você tendo que sair apressado de um navio completamente embriagado… Quais seriam suas chances de sobreviver? Muito menos de "51" por cento…

- Use a internet racionalmente. O uso da internet no navio é pago. Um preço absurdo por sinal. Um cartão que dá direito a três horas de internet muito ruim sai a pelo menos 16 Euros, ou seja, com isso, a grande maioria não se conecta enquanto o navio está em mar, preferindo faze-lo quando chegar a algum porto. Corretíssimo, mas lembre-se que você escolheu trabalhar em uma navio não somente pelo dinheiro e o trabalho, mas também para conhecer lugares em que pagaria muito caro para estar, então cuidado e não desperdice seu precioso tempo em horas na internet visitando o Facebook ou "alimentando os bichos das fazendas virtuais"… POR FAVOR! Conheço gente que não anda em Mykonos… o navio chega e o otário fica lá, por mais de cinco horas sentado comendo Gyros e bebendo cerveja olhando seus e-mails e redes sociais. Chega a ser bestial mas é verdade, portanto, VIVA!

- Conheça o seu navio! Isso é muito importante. O navio é um verdadeiro labirinto flutuante. Para a tripulação é ainda pior, pois os passageiros somente conhecem seu espaço, nós temos que conhecer o nosso e o deles, pois os dois nunca convivem tanto, são mundos completamente diferentes. Teoricamente os passageiros jamais podem ir onde vivem os tripulantes, então é como estar na terra e saber que há um mundo paralelo, bem ali perto da gente. Transite o máximo possível por todo o navio até conhecer muito bem todos os seus caminhos. Isso evitará atrasos caso necessite chegar rapidamente a alguma parte e, volto a dizer, não sou pessimista mas a verdade é que você estará em alto mar, ou seja, caso aconteça algo, precisará saber todas as rotas possíveis de fuga, afinal, viver é preciso!
Vista da Torre de Galata, Istambul / Foto de Luck Veloso
- Faça amigos na cozinha. Isso é uma regra de sobrevivência. Trabalhando em um navio, você poderá muitas vezes perder a hora do almoço ou da janta. No início acontecia muito isso comigo, hoje não mais. Não sei você mas no meu caso, ficar com fome é a coisa mais terrível do mundo. Simplesmente não consigo pensar. Caso você perca a janta em um navio, provavelmente ficará até o dia seguinte ao meio dia sem comer, isso caso você não queira acordar às sete da manhã para aproveitar o primeiro lanche do dia, ou seja, corre o risco de ficar pelo menos umas 15 horas sem alimentação, portanto, olho no relógio e organização na agenda para não ficar de fora do rango. A maioria dos navios conta com serviços de despertador nos telefones das cabines, o que ajuda um bocado.

- Racionalize o uso do cartão telefônico internacional. Quando cheguei, utilizava praticamente um cartão por ligação, o que me dava uma hora e seis minutos de bate papo. Não use o cartão todo em um dia somente. Ligue já com a certeza do que falará e converse em um ritmo um pouco mais acelerado. Com isso você conseguirá falar muito mais vezes com as pessoas que ama e que estão longe de você. Avise as pessoas que a chamada telefônica do navio é tarifada a partir do primeiro toque, mesmo antes da pessoa atender do outro lado. A comunicação no navio depende de satélites, então cada segundo precioso é pago com o seu dinheiro, inclusive aquele barulhinho da chamada, portanto, atender rápido é fundamental do outro lado da linha. Se possível combine horários com a pessoa do outro lado (do mundo) e isso facilitará bastante sua vida (e seu bolso).
Vista da base da Torre de Galata, em Istambul / Foto de Luck Veloso
- Tente não andar sozinho. Ao descer em algum porto desconhecido pela primeira vez, não dê uma de Indiana Jones. Saia em grupo para explorar o terreno e busque o máximo de informações possíveis sobre o local. Você voltará lá mais vezes dependendo da rota em que o navio está, portanto, terá chances de fazer seu 'vôo solitário' caso deseje. Ao sair do navio, informe-se sempre sobre os horários de partida. Geralmente a tripulação tem que estar de volta a bordo meia hora antes dos passageiros. Fique completamente atento ao relógio pois o navio não espera, caso você perca o horário ele partira sem remorsos, deixando você literalmente a ver navios em alguma cidade em que você não conhece nem o cachorro. Caso isso aconteça e se acontecer, saiba que já estou com pena de você antecipadamente. Uma dica é tentar pegar uma lancha próxima e chegar até o navio pedindo para o navegador ir tentando fazer comunicação. Se isso não for mais possível, você poderá aguardar o navio voltar à cidade (em alguns casos, isso pode levar até três dias) para embarcar novamente, mas saiba que com certeza já terá perdido o emprego e terá que arcar com todas as despesas com o retorno ao seu país de origem, portanto… RELÓGIO é a solução.

- Crew Party: Como ficamos vários meses embarcados, é natural que precisemos de alguma distração para aliviar o stress do trabalho diário, sem final de semana ou feriado. Há as chamadas "crew party" dentro dos navios, onde uma grande festa é preparada somente para a tripulação, ou seja, nada de passageiros. Geralmente é em alguma área isolada do navio. Nunca fui a uma pois meu horário é totalmente incompatível, já que também estou tocando mas para os passageiros. Como meu trabalho já é divertido por si, não preciso de crew party mas se você for a alguma, tente se comportar da melhor forma possível. Geralmente nas festas há gente de vários departamentos do navio de olho em tudo e em todos, olhando a maneira e o comportamento das pessoas. Sim, você está em um mundo onde a aparência conta e muito, portanto, cuide da sua e nada de ficar bêbado ou com comportamentos excessivos. Como diria o poeta, as feias que me perdoem mas beleza é fundamental. Bom senso idem.

- Agrade, agrade e agrade. Você estará confinado em um cubículo por seis meses (ou mais). Nossa cabine, carinhosamente chamada de "habitação", é uma caixa de fósforo onde uma pessoa com mais de 1,80m não pode viver. Sim, o espaço é muito pequeno e você terá vários vizinhos que provavelmente ouvirão (quase) tudo o que se passa, pois as divisões entre as cabines são muito finas, sem nenhum tipo de isolamento acústico. Tente não fazer muito barulho, principalmente ouvindo musica. Utilize o headphone mas não ponha no volume máximo pois você poderá não ouvir a chamada do telefone ou ainda, algum comando feito por sistema interno de som. Ficar atento é o caminho. A maioria das cabines pessoais não tem banheiro próprio, portanto se você é daqueles que não vivem sem privacidade, é bom já ir pensando que isso você raramente terá embarcado. No meu caso, sou privilegiado, tenho uma cabine própria com banheiro, o que é um luxo, pois somos os chamados "Staff", contamos com alguns privilégios. Isso inclui toda a parte artística e alguns cargos de chefia.

Cabine compartilhada e festinhas - cuidado!

- A grande maioria da tripulação vive em uma das cabines citadas com mais uma pessoa. Todas as cabines têm duas camas, uma em cima da outra. Isso significa que você ganhara um companheiro ou companheira pelos próximos meses. É quase um casamento sendo que sem sexo. Você verá aquela pessoa todos os dias, no início, meio e fim de seu trabalho. Vai conviver com ela todos os instantes e saber de suas manias, educação, jeitos e defeitos, portanto, tente ser o mais leve possível para não ter problemas. Tive sorte de compartilhar a minha cabine somente no primeiro mês, ganhando uma somente para mim a partir do segundo, mas durante este primeiro mês, ganhei um grande amigo e ainda melhorei um pouco minha conversação em espanhol.

- A pressão dentro de um navio é grande. Você precisa estar sempre bem, cara boa, limpo, roupinha bonita (no meu caso, não teve muito jeito rs), dependendo do seu cargo, tem que usar uniforme quase 24 horas por dia (felizmente como DJ não preciso) e em muitos casos a pessoa tem intervalos de duas horas no meio do trabalho, o que lhe permite tentar dormir ou descansar neste período, mas é um sono tão quebrado que ao final do dia a pessoa fica parecendo um zumbi. Com tudo isso 'de bom', nada mais natural que as pessoas tentem algum tipo de diversão e isso ocorre geralmente dentro das cabines, onde um convida o outro para ouvir música, beber alguma coisa e aí vão chegando outros e outros e quando você vê, há pelo menos umas dez pessoas em um espaço onde caberiam normalmente cinco. A festinha na cabine é proibida, punida com "warning". O warning, como o próprio nome diz é um aviso de que você cometeu uma infração. São permitidos três, sendo que no ultimo você já desembarca rumo à sua casa. Nunca fiz festinha na minha cabine mas já fui a algumas de outros amigos aqui, porém sempre que der, fale baixo e não coloque a música muito alta, pois há outras pessoas ao lado tentando dormir depois de um dia estressante de trabalho e caso você se exceda, não tenha dúvida, seus vizinhos irão telefonar anonimamente para a segurança do navio dando o endereço da balbúrdia e ai tá todo mundo ferrado.

O Drill

Assim que você embarca já percebe que o mundo mudou para você. Agora você não se pertence mais e sim a uma companhia que, além de precisar do seu trabalho, exigirá que você esteja treinado para situações de emergência a bordo de um transatlântico cruzando vários países com milhares de passageiros. O Drill, ou treinamento, é um exercício semanal onde toda a tripulação junto aos passageiros, simula uma fuga ou situação de emergência a bordo do navio. O exercício é uma loucura pois todos precisam ir às suas cabines pegar jalecos salva vidas e depois, rumar a pontos de encontros previamente determinados. Encarando pelo lado bom da coisa, é uma forma divertida de você praticar novos idiomas, pois vários passageiros o abordarão perguntando por muitas coisas, aproveite e pratique! A maioria da tripulação não gosta de fazer o Drill mas é necessário, pois aprendemos tudo o que é preciso fazer caso ocorra algo de errado com o navio. Isso não evita que todos comemorem com gritos quando ouvem a frase: "Atention all crew, the drill is over".

Boa viagem, boa sorte e volte aqui para nos contar!
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