Vou me mudar para Istambul



22 de setembro, Izmir, a caminho de Rodhes as 16:56

21_09 - Istambul - Estive novamente por dois dias em Istambul e confesso que fiquei um pouco mais maravilhado que de costume com a histórica cidade turca. No primeiro dia era minha cor mas fiquei muito agoniado por estar em Istambul e nao poder sair. Imagine você estar no paraíso e ficar trancado em uma gaiola. Era como eu estava me sentindo. Reuni minhas forcas e fui falar com os responsáveis pela liberação de cor. Dez minutos de boa conversa carioca e um argumento sincero de que desejava muito estar na rua foram o bastante para que eu conseguisse o documento de liberação. Parti para fora do navio como um cachorro que fica preso por muito tempo e consegue a liberdade. Estava feliz. Poder respirar o ar de Istambul e presenciar todas as suas cores é uma experiência unica, que recomendo a todos os seres humanos fazerem um dia. E é claro, uma noite.

Depois de algumas horas dentro do navio ajudando aos técnicos a consertarem a cortina do teatro, rumamos em direção ao Gran Bazar, mas antes experimentamos um sanduíche típico turco, o Kebab, muito gostoso. O Gran Bazar é um lugar incrivelmente magico, onde você caminha entre as milhares de tendas e sente aromas completamente diferentes, de tempero, materiais diversos, de gente de toda parte do mundo. Burcas, jeans, camisetas e bermudas, tudo se mistura em Istambul. Eu precisava comprar uma mochila e me enfiei no meio do mercado para achar a correta e finalmente encontrei uma Wilson preta a minha espera. Istambul tem coisas incrivelmente baratas, basta rodar um pouco para encontrar. Apos um rápido lanche seguimos em direção ao centro da cidade. Queria muito ir novamente a Taksim, a rua principal onde ha varias lojas, restaurantes, bares, clubs e infinitas lojas de equipamento de som. Um sonho de lugar.

Infelizmente nao teria como emendar a noite pois teria que tocar dentro do navio, mas comecei a elaborar um plano para fugir na madrugada. No primeiro dia nao fui muito longe. Usei um pouco de internet em um dos bares que vendem somente cha e narguile em volta do porto e depois segui para os restaurantes embaixo da ponte que liga a Asia a Europa e divide Istambul. Queria muito presenciar o entardecer dali e fiquei la, sacando dezenas de fotos enquanto curtia uma cerveja e observava vários pescadores tentando a sorte de um peixe, mas creio que o fazem mais por terapia, pois raramente observo um peixe fisgado ali da ponte. Nao importava. Ver aquele céu com cores diversas, os navios cruzando o canal e a visão das mesquitas tao de perto me deixou maravilhado, novamente. No primeiro dia nao consegui sair do navio, mas ainda havia mais dois dias em Istambul...

No dia seguinte, fomos em três, eu e os técnicos de som Paul (Romania) e Massimo (Italia) para as ruas apos o serviço de reparo na cortina do teatro. Apos as fotos da noite anterior na rua, eu estava ávido por novas imagens e nao deixei a câmera um instante dentro da bolsa. Apos mais de uma hora rondando dentro do Gran Bazar comendo iguarias turcas, decidimos ir a Taksim. Paul queria pegar um taxi mas sinceramente, acho um desperdício andar dentro de um carro em Istambul. Determinei que fossemos caminhando pela cidade. Seria um tanto longe, mas logo minha recompensa viria… Cruzamos a ponte que divide a Asia e a Europa e fomos em direção as ruas íngremes que levam a Taksim quando em uma das vielas, dei de cara com a torre de Galata, um dos mais respeitados monumentos da Turquia. Como sempre fico para trás pois tiro foto ate de mosquito, Paul e Massimo me aguardavam na esquina eja haviam combinado que eu ficaria maluco quando visse aquela imagem. Dito e feito, quando cruzei a esquina e olhei para cima, vi a imagem que ilustra este post e soltei um "Fuck", ouvindo em seguida as gargalhadas dos dois comemorando o que haviam previsto…



Quando ando por Taksim fico tao louco de emoção que saio clicando tudo o que vejo pela frente. Fiz uma seqüência de fotos incríveis e to postando tudo nos meus sites de relacionamento. Meu site "oficial" esta em off por enquanto, entao tenho usado os nao oficiais para mostrar o que tenho vivenciado, mas tudo é muito pouco para descrever o que é Istambul. Quando voltei para o navio, toquei "Drops de Istambul" na pista de dança, ainda com poucas pessoas. Esta musica marcou minha adolescência e é um clássico underground do Rio de Janeiro, idealizada pelo poeta louco Fausto Fawcett. Eu ainda nao imaginava que um dia conheceria a cidade tema mas sempre amei esta canção pela loucura que ela traduzia. Como a primeira noite de Istambul é de embarque no navio, nao havia muita gente e decidi que nao ficaria ali, tocando para 15 pessoas enquanto Istambul respirava por mim fora do barco. Aprontei rapidamente uma seqüência de duas horas de hits e parti para a rua, precisava muito voltar a Istambul, ainda mais a noite.

Encontramos com um grupo de Brasileiros que havia deixado o barco e partimos para Taksim. Um bar com musica ao vivo convidava para uma copa, ficamos ali, ouvindo aquele som de violão suave e uma língua que eu nao consegui compreender uma só palavra. Fazia frio e uma fina chuva começou a cair. Em determinado momento, sumi da mesa. Nao fisicamente, mas minha mente estava longe, ou melhor, estava ali em Istambul, mas eu nao sentia muito o que havia na mesa, me peguei sorrindo e feliz por estar ali, naquele pais que somente ouvira falar ha tempos e principalmente, na cidade mais maravilhosa da Europa na minha opinião, Istambul. O bar estava cheio e varias pessoas cantavam as musicas com os caras que revezavam no violão, ou seja, estávamos entre autênticos turcos, nao eram turistas. Poucos falam inglês entao os pedidos ficam por gestos na maioria das vezes. Ficamos ali, por uma hora e meia ouvindo hits turcos e comemorando o fato de estarmos vivos e em uma das mais importantes cidades do mundo. Pelo menos eu estava comemorando, mesmo que internamente.

Em determinado momento da noite, me perdi de Paul, ficando somente com os brasileiros. O clima estava ótimo e nao fiquei preocupado, na verdade, ate gosto quando estas coisas acontecem. Andamos pelos becos e ruelas de Istambul ouvindo entre eles o som ensurdecedor dos diversos clubs que funcionam a todo vapor nos terraços de Taksim. Nao foi desta vez que me aventurei em um deles, pois nao havia muito tempo, mas ficamos ali, tomando a ultima cerveja e observando o movimento de toda aquela gente tao diferente, os clubs com ar modernos, os restaurantes e as cores em meia luz de Istambul. Alias, tudo na cidade é a meia luz, o que da um clima super diferente em qualquer angulo. Ate mesmo um mero mercado dificilmente tem uma luz direta e branca em Istambul, tudo é em meia luz, contra parede e em segundo plano, o que torna quase todos os pontos algo a apreciar. Imagine isso com uma câmera na mao, por isso me vejo sempre louco nessa cidade.

Apos deixar os brasileiros no hotel próximo a Mesquita Azul, decidi que voltaria para o porto caminhando. Eram quase cinco da manha e nao havia uma alma na rua. Chovia fino mas eu estava com uma boa jaqueta de couro que me protegeria. Nao hesitei e fui andando de perto da estação Karakoy ate o centro da cidade, passando ainda pela ponte novamente, a que faz a divisa da Asia com a Europa, mas desta vez, a sensação era outra. Estava agora no meio de Istambul, ninguém na rua, chuva fina, um ar gelado e o coração fervendo de emoção por estar caminhando ali, somente eu e mais ninguém. Em seguida, passei por três corajosos pescadores que tentavam pegar algo protegidos por plásticos e segui em frente. Na outra esquina, a policia me parou. Eu estava com uma Heineken em maos e um dos guardas apontou. Sorri e falei que nao ofereceria pois eles estavam a trabalho. Quando pegaram meu Crew Pass, que é a identificação que os marinos utilizam no lugar do passaporte, sorriram e falaram "bresiiil". Sorri de volta e me deixaram ir. Por isso amo o Brasil, temos problemas mas somos queridos em qualquer lugar.

Confesso que fiz uma oração no meio da rua. Pedi uma proteção extra, pois sinto que tenho muita proteção e pedi que nada de ruim me acontecesse, pois queria muito ir andando naquela chuva fina ate o porto, nao queria me enfiar em um taxi e acabar com aquela magia em cinco minutos. Quando cruzei com um gato no meio da rua e ele nao me deu a mínima, senti que o clima da rua estava 'limpo' e segui em frente. Entrei por fim em um posto de gasolina para pegar mais uma latinha de cerveja. Ja estava perto do porto e este meu pit stop serviria como que para esticar um pouco a madrugada, que eu queria tanto que nao acabasse. Estava com o coração leve, muito feliz, embora com uma enorme saudade de tudo no Brasil, mas nao seria hipócrita de me recusar a vivenciar aquilo tudo. Lembrei da policia me parando e comecei a rir sozinho no meio da rua. Nunca uma 'dura' me deixaria tao feliz, mas esta me fez sorrir, afinal, quem de nós, roqueiros e pessoas que curtem uma boa musica eletrônica nao quer poder lembrar que tomou uma dura em uma madrugada fria e solitária em Istambul? Cheguei até a pensar em vir morar na cidade. Se nao fosse o idioma, seria muito fácil parar por aqui em um futuro próximo, mas sinceramente, meu coração ainda me diz que tenho muitas coisas a fazer no Brasil, embora Istambul esteja agora para sempre fincada em minha alma.

Musicas que ouvi enquanto escrevia este post:

Cosmic Girl - Jamiroquai
Little Girl - Janis Joplin
Price of Love - Client
Pride - Syntax
So Damn Beautiful - Poloroid
Vou me mudar para Istambul Vou me mudar para Istambul Reviewed by Luck Veloso on 13:18 Rating: 5
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