A esfinge e o concerto - Piramides do Egito


Sempre li e vi inúmeras fotos sobre as pirâmides do Egito mas confesso que nunca imaginei poder ver essas maravilhas de perto um dia. Mas o dia chegou… Em 24 de setembro de 2010 la estava eu, dentro de um ônibus um tanto apertado é verdade, mas passando pelas ruas do centro de Alexandria e rumando para o Cairo. Achava engraçado quando via aqueles ônibus lotados de turistas apontando suas câmeras para todos os lados e disparando inúmeras vezes. Agora os entendia, pois fazia parte da mesma tribo. Estavamos em uma sexta-feira, que é um dia de descanso para os egípcios, e um dia festivo também. Nosso guia, que como nao poderia deixar de ser se chamava Muhamed, assim como o motorista do ônibus e o nosso segurança (falo sobre isso já) era um cara muito simpático e engraçado e falava muito bem o espanhol, o que tornou a viagem de cerca de três horas ate o Cairo muito divertida. Chamava a todos de "Familia" com um sotaque que jamais ouso repetir de tao diferente e engraçado e isso aliviava a tensão da viagem e o desconforto do bus.

Comecou a contar sobre toda a origem do Egito, que apesar de estar na Africa, tem suas origens no mundo árabe, tendo sido colonizada por Alexandre, o Grande, principalmente a parte de Alexandria, dai o nome da cidade, claro. O caminho ate as pirâmides é um tanto feio. Conforme Muhammed nos explicou e pudemos constatar, o dinheiro é muito mal dividido por aquelas bandas, segundo ele disse, cerca de 70% da população é pobre, mais 25% sao classe média e os outros 5% sao os donos da prata toda. Soa um tanto familiar nao? Perguntei por que havia basicamente carros muito antigos circulando pelas ruas e ele informou que o governo tenta proteger de todas as maneiras a industria nacional, criando taxas de importação que podem chegar a 200 % o valor do veiculo comprado, ou seja, somente para muito ricos mesmo poder comprar um outro carro que nao seja o montado localmente. O 'carro nacional' do Egito é muito feio e o próprio Muhamed confessou achar isso. Trata-se na verdade de um FIAT muito básico, que lembra em muito o horrendo Lada, muito quadrado e pequeno. Mas ha outros meios de transporte incrivelmente pobres por la, conforme você poderá ver no meu álbum nos sites de relacionamento. Incrivel.

Tratei de apontar a câmera na direção de tudo o que achava interessante mas nao captei muita coisa boa no caminho, embora tenha somado 1300 fotos ao final do dia, tive que 'peneirar' muito para fazer um álbum decente. Havia um security da companhia dentro do ônibus que estava também com uma Nikon nas maos mas com um disparador que parecia uma metralhadora. Se eu fiz mil fotos ele deve ter passado das cinco mil. A ver o que sobra. Passadas algumas horas ouvindo Muhamed falar sobre as cidades, chegamos finalmente ao centro do Cairo. Leis de transito nao existem no Egito e semáforos sao simples pecas decorativas no meio da rua. Quando existem. Voce pode atravessar a rua quando bem quiser e desejar, mas isso também da ao motorista o direito de passar por cima de você, se ele quiser, sem punição. Louco nao? A questão é que segundo dados seguros, os egípcios sao exímios motoristas, tanto é a atenção que se exige para dirigir em um lugar sem controle de trafego. A buzina é uma segunda língua no Cairo.Tivemos sorte por ser um dia de descanso e as ruas estavam vazias, pois geralmente é um caos. Um toque significa que você quer passar. Dois toques significam que você quer passar e acha o cara da frente um idiota. Tres toques significam "vai tomar no cu, quero passar". Mas isso nao precisava de muita explicação, nao acham?

Nossa viagem pelo Egito estava dividida em três partes. Primeiro o famoso Museu do Egito, depois as pirâmides e em seguida o mercado para compra de souvenirs. Fiquei animado com o museu, onde eu veria o maior numero de tumbas e múmias que jamais vi na minha vida. A tumba de Tutan Khamon também está guardada la, assim como todos os seus tesouros, encontrados através dos séculos. A única coisa que realmente me deixou frustrado foi nao poder entrar com câmera fotografica… terei que guardar toda aquela visão somente na minha mente e nao posso compartilhar isso com vocês aqui, mas posso tentar descrever algo. Um dos tesouros que mais me impressionaram foi a enorme caixa encontrada pelos faraós ha mais de dois mil anos antes de Cristo. Como Tutan Khamon era um comandante muito esperto, sabia do perigo de abrir uma caixa desconhecida, ainda mais enterrada ha milhares de anos. Ele sabia que havia gases tóxicos dentro delas e enviava seus comandados para realizarem a tarefa. Todos morriam, sempre. Ele somente se aproximava do tesouro encontrado por volta de cinco ou seis horas depois, quando o vento já havia propagado o gás letal. Inteligente esse cara. Dai surgiu toda aquela historia de maldição da múmia, que na verdade, tratava-se apenas de ciência, nada mais.

Eram cinco caixas enormes. A maior passava do tamanho de uma garagem e era totalmente recoberta de ouro e havia mais outras quatro, que foram sendo encontradas uma dentro da outra, segundo a historia. Impressionante! Eu olhava para aqueles tesouros com milhares de anos e me sentia um tanto curioso, queria saber sobre tudo, mas realmente nao havia tempo. Em certo momento dei de cara com uma cadeira enorme, feita de ouro maciço e fiquei a pensar quanto deveria valer aquilo. Me afastei da excursão e fui caminhando sozinho por um corredor de tumbas com os desenhos dos faraós. Senti um arrepio, nao sei dizer porque. Nao tenho medo dessas coisas, mas ali nao era um filme, estávamos de cara com tumbas reais, de reis, rainhas, faraós e gente muito antiga, que havia sido muito rica em um passado muito distante do nosso e agora eram motivo de estudo. O corredor dos papiros é impressionante. A quantidade de desenhos e significados nos deixa de boca aberta. Um dos mais antigos papiros esta exposto no final da escadaria central do museu e trata-se do Papiro da morte, ou seja, nele esta toda a explicação em desenho, de sua vida apos a morte. Trata-se de uma seqüência, onde você é conduzido ate uma espécie de balança onde removem seu coração e o colocam de um lado e no outro lado uma pluma. Se o coração pesar menos que a pluma, você poderá ir direto para o paraíso, sem escalas. Caso contrario, você com certeza fara um 'download' ate as profundezas do inferno. E assim sera. Queria ficar mais tempo ali naquele lugar magico ouvindo todas as explicações mas precisávamos rumar para as pirâmides…

Piramides e a Esfinge


Voltamos ao ônibus e apos mais 15 minutos finalmente começávamos a ver a ponta dos enormes triângulos ao fundo da estrada. Era uma visão impressionante, pois eu nunca havia visto daquele ponto. Ou melhor, de nenhum (risos), pois quando divulgam as fotos, tiram somente das pirâmides no meio do nada e confesso que nao sabia que elas estavam ali, bem pertinho da cidade, a cerca de tudo. O restaurante ficava em um bom hotel e havia uma mesa reservada para o nosso ônibus. Achei ótimo nao precisar entrar em fila, um dos poucos luxos que nos ofereceram neste trajeto e todos na mesa riram quando eu disse estarmos comendo peixe diretamente do Rio Nilo. Alias, esqueci de contar. Passamos por cima do Rio Nilo quando estávamos a caminho do museu. O rio é enorme e divide a cidade do Cairo. Embora tenha sido uma visão rápida, consegui registrar em foto, pois Muhamed (o motorista) passou mais devagar para que víssemos com calma. O almoço teria que ser leve, pois nosso próximo destino exigiria um tanto de esforco, as pirâmides.

Os ônibus viajavam em comboio, com segurancas armados a bordo e o nosso, também chamado Muhamed, tinha um enorme volume sob a roupa, o que entregava estar no mínimo com um Uzi. Nao sei se vocês lembram mas ha tempos um ônibus havia sido seqüestrado no Egito, com tiros sendo disparados por todos os lados e um final nao muito feliz para algumas pessoas. Nao gostei de ter lembrado disso mas era um fato. A vida é assim, encare ou nao. Eu sempre encaro, muitas vezes me dou muito mal mas na maioria das vezes, saio vitorioso e ali estava, a caminho de uma das maravilhas do mundo, com uma arma muito mais poderosa que qualquer metralhadora, o poder positivo. Nao vi nada aparentemente perigoso em todo o caminho mas como sempre, o perigo quase nunca esta a vista e fiquei muito feliz por nao te-lo encontrado. Todos comeram rápido pois estávamos ali, em frente as pirâmides, era literalmente atravessar a rua e entrar para ver o que o homem levara milhares de anos tentando decifrar e nao consegue: como os egípcios (ou seja la quem for) conseguiram montar todas as pirâmides, com enormes blocos de pedra que pesam de três a sete toneladas? Muhamed nos contou sobre as teorias das rampas, que partiriam da cidade ate aquele lugar deserto mas seria impossível empurrar tantas pedras em uma rampa, ou seja, ate hoje ninguém sabe como foram construídas as pirâmides. Mas eu nao estava ali para descobrir isso, apenas para apreciar e sacar o maior numero de fotos possíveis.

Fiquei mudo quando cheguei as pirâmides. Como sempre faço, me afastei. Queria ver aquilo de perto e sozinho. Fui caminhando para perto da pirâmide maior (sao três na verdade e uma delas com mais três menores, que sao as das ex mulheres). Era realmente impressionante estar de cara para tudo aquilo! Fiquei ali olhando tudo ao redor como uma criança que entra no parque pela primeira vez. Mas nao da muito tempo para ser poético perto das pirâmides. Conforme nos alertou Muhamed, o guia, era preciso estar atento pois ha inúmeros 'vendedores' e donos de camelos que podem te roubar sem que você sinta nada e ainda havia o perigo de você subir em um camelo e depois nao te deixarem descer de la pois te pedem o dobro ou o triplo do valor depois. Nesta parte da explicação cheguei a sorrir e pensei comigo: 'vim do Rio de Janeiro, seguramente um dos lugares mais perigosos do mundo quando se trata de pivetes tentando te roubar e nao sera um dono de camelo que vai conseguir isso comigo'. Mal pisei nas pedras do chão e vieram cinco donos de camelo falar comigo. Estava um calor dos infernos e nao dei atenção a eles, queria fazer fotos.

Apos um tempo, amigos se juntaram a mim e rumamos para as pirâmides com maquinas em punho e desviando de inúmeros vendedores no meio do caminho. Em certo ponto, veio um egípcio com uma cara boa falar comigo (todos tem cara boa, mas geralmente é somente a cara rs). Chamava-se Jimi e nos oferecia o camelo. Neste ponto eu já havia trocado de camisa, optei por usar uma da seleção brasileira com o numero 8 e escrito "Kaka" nas costas. Um erro, pois agora eu era o ponto mais famoso ali no meio das pirâmides, com todos os vendedores gritando "Kaka" a todo instante e "Bresiil". Fechei a cara e falei firme com Jimi que toparia subir no camelo por três euros para umas fotos. O cara parecia carioca pois nao disse que sim nem nao e sorria sempre, afirmando que se eu estivesse feliz, eu com certeza o faria feliz. Isso eu já tinha ouvido de alguns policiais militares no Rio de Janeiro e era curioso voltar a ouvir no meio do deserto em frente as pirâmides. Como nao teria nada pior do que ter que saltar do camelo com a câmera na mao, subi no bichano. O bicho é muito alto e solta uns rosnados assustadores, parece que vai te morder, mas na verdade, é somente barulho. Fiquei ali, pagando aquele mico montado no camelo e dando umas voltas com os amigos registrando tudo em foto. Jimi tentou me levar para longe do grupo, em direção ao deserto descampado. Sorri um pouco para ele e afirmei que desceria do camelo naquele instante. Nao perguntei, afirmei. Jimi deve ter entendido que eu nao estava brincando quando ameacei saltar do bicho, o que seria pior para ele pois certamente eu nao me machucaria e ele nao receberia nada.Quando ele baixou, lhe dei cinco euros pelo pequeno passeio e sai de perto andando rumo as pirâmides com ele ainda sorrindo e afirmando ter me custado 15 euros. Sorri de volta e falei para ele ir cobrar do Kaka quando visse o jogo na televisão e o deixei para trás.

Um brother do grupo, Rodney, igualmente carioca como eu nao conseguiu ser tao esperto e foi roubado em 60 euros. Falei que ele nao era mais carioca depois daquilo e ele riu. Agora estavam atras do moleque que o havia furtado em meio as pirâmides. Missao impossível. O Muhamed policial ficou nas pirâmides enquanto rumamos para a Esfinge. Ele disse que certamente daria um jeito naquilo. Claro que nao acharam quem roubou e deram os 60 euros para o Rodney. Nao seria por um valor desses que deixariam uma pessoa ficar falando para todos que fora roubado no Egito, mas nao tem jeito, ca estou para contar. A Esfinge é menor do que imaginei, achava que era enorme. Era grande, mas nao tanto quanto aparece nos filmes. No dia seguinte a nossa visita, haveria ali um concerto do Andrea Bocelli. Imagina? Um show desses ali de cara para a Esfinge e as pirâmides, deve ser uma coisa de louco. Registrei algumas fotos da Esfinge e mais algumas das pirâmides e voltamos para o bus para partirmos em direção ao pequeno bazar de compras. Para mim a ida terminou ali, pois o bazar era muito pequeno e somente valeu a pena pela aula de como se fazer papiros, que consiste em uma planta que forma um material que é cortado em tiras e sobreposto em forma de tranca, sendo prensado depois para servir de papel para os desenhos, uma técnica utilizada ainda hoje pelos egípcios. Fiquei com um nao muito antigo mas muito bonito, mas Muhamed me disse que aquele nao era o verdadeiro, que se desfaria em meses. Mas nada é éterno, embora algumas coisas durem alguns milhares de anos, como as pirâmides.

Musicas que ouvi enquanto escrevia este post:

Relicario - Nando Reis
Pobre Paulista - Ira!
Point of no Return - London Elektricity
Pojo Pojo - Cyberfit
Policy of Truth - Depeche Mode
Poursuit Les Pigeons Capucins - Francois de Roubaix
The Power - Snap!
Power to Love - Jimi Hendrix
PQP - Monica Montone
A Praieira - Chico Science & Nacao Zumbi
The Prettiet Star - David Bowie
Price of Love - Client
Suffer Well (Tiga Remix DJ Set Dubtended) - Depeche Mode

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