Volos e um chato em alto mar


Sempre me achei uma pessoa de sorte, mesmo em momentos difíceis. Hoje nossa parada foi em Volos e como achei o lugar um tanto feio, nao planejava sair pela cidade e coincidiu exatamente de cair no dia da minha cor. Conforme falei anteriormente, temos uma divisão da tripulação onde cada um recebe uma cor, para que haja uma quantidade mínima de pessoas a bordo, sempre. Minha cor é o branco e hoje nao pude sair. Otimo, pois isso significa que terei três dias podendo sair (caso nao haja muito ensaio da companhia) pelas ruas de Istambul, que gostei tanto. Me acho um cara de sorte por isso, minha cor sempre cai em lugares onde nao to muito a fim de descer e passamos pouco tempo, como Volos, com isso, tenho conseguido conhecer os melhores lugares. Ainda nao sei nada sobre Volos, mas a única vez em que desci na cidade, me pareceu um lugar estranho, comum e um tanto feio, mas ainda vou pesquisar melhor, vai que estou perdendo algo bom por julgar pela aparência.

Estamos agora ao mar, a caminho de Istambul e estou nos backstages, aguardando o termino da apresentação do trio de jazz formado pela cantora espanhola Alba, o pianista cubano Alf e o saxofonista espanhol Pera. Formam um competente trio na minha opinião. So poderiam tocar com um pouco mais de tesao. Acho que o costume de estarem todo tempo juntos, compartilhando quase os mesmos momentos e vivendo fechados em um mesmo lugar tire um pouco daquela emoção de encontrar um companheiro de trabalho, nao sei o que pode ser, mas nao é algo bom para um grupo tocar com cara de elevador. O resultado sao aplausos parcos e gente conversando o tempo todo durante as musicas. Mas, como diz o técnico Paul, nao é um show e sim um coquetel, entao paciência.

Ontem foi uma noite atípica e estranha. Comecei a tocar a uma da manha e nao deu muita gente na boite, pois como hoje sera a ultima noite de cruzeiro para os passageiros a bordo, creio que muitos estavam em suas cabines se preparando para partir, mas havia um grupo bem animado na pista, o que sempre da um fôlego a mais. Depois de uma sessão de salsa, iniciei com o set de eletrônico mesclando algumas coisas conhecidas a outras nao tanto. Utilizei a versão dance de ' Suavemente' , de David Crespo, um verdadeiro hit por aqui mas a pista so incendeia quando toco a original, o que fiz logo em seguida. Proximo do final da noite, quis tocar algo diferente e coloquei Kiss na versão de Tom Jones, no que fui advertido pelo técnico de som Florant. Ele afirmou que aqui na Europa, Tom Jones nao é muito bem visto, aparecendo como algo comercial e oportunista. Vivendo e aprendendo. Cresci adorando as duas versões de Kiss, tanto a de Prince quanto a de Tom Jones, que sempre rolavam na Fluminense FM, se nao me engano ha ainda uma outra versão do The Art of Noise, mas nao me recordo. Enfim, a cada dia descubro que tocar na Europa é literalmente outro mundo.

Uma unanimidade entre os jovens daqui é Prodigy, que eles pronunciam com um sotaque incrivelmente enrolado, que nao da para definir direito o que é. Breath e Smack My Bitch Up parecem ter sido lançadas no ano passado, tamanha é a alegria com que todos recebem a musica na pista. Mas o que faz mesmo a cabeça do publico espanhol é o rock e uma outra mescla de dance music com um tipo de merengue, uns remixes nao muito trabalhados mas que sao muito eficientes em pistas européias. Do rock, destaco nomes como Los Delinquentes (La Primavera Trompetera), Estopa & Rosario Flores (El run run), Jarabe de Palo (Bonito), outra do Estopa também muito boa é Vino Tinto. Ha ainda outras coisas bem legais como Coyote Dax (No me rompas mas), esta musica entao é uma verdadeira festa, pois segundo me disseram, no clipe ha uma coreografia country acompanhando a musica, entao quando toco isso, todas as pessoas da pista, novas ou velhas começam a coreografia do clipe, tornando a pista de dança em um visual uniforme e sincronizado. Uma musica que tem funcionado muito também é Samba Love, de JJ Romero, que é uma mescla de tribal com samba, algo que soa muito bem aos ouvidos dos espanhóis, anda mais quando sabem que sou um DJ brasileiro tocando para eles.

Ao tocar esta musica ontem ao final da noite aconteceu algo muito curioso. Claro que estamos em um navio e ha toda a tripulação formada por oficiais que determina varias regras de conduta a seguir a bordo, mas os caras sao tao cegos em relação a isso que chegam a nos cobrar coisas absurdas. Geralmente a disco funciona ate as quatro da manha, caso haja gente ainda dançando mas o bar pode fechar antes. Como ontem era praticamente a ultima noite, as pessoas ainda estavam animadíssimas as quatro da matina e eu e Florant decidimos esticar a noite deles, tocando de tudo atendendo aos pedidos. Isso com certeza faz uma diferença enorme, o passageiro se sente confortado, muito mais próximo dos profissionais, gerando certamente resultados positivos para a empresa. Parece que somente nos pensamos assim, pois um dos oficiais da segurança apareceu para nos informar que deveríamos parar o som naquele momento. Reclamou que estávamos dançando junto aos passageiros e nao poderíamos ter aquela conduta. Como Florant tem o pavio curto, pegou o microfone e repetiu sem saber, o ato de um célebre DJ dos anos 60 chamado Alan Freed. Apontou para o oficial e afirmou ao publico que ele queria acabar com a festa deles, que nao poderíamos mais tocar…

Achei que naquele instante começaria uma das maiores discussões que já presenciara na vida, mas contrariando minhas expectativas, o oficial indiano afirmou com uma calma de Buda que o que Florant havia feito nao tinha sido algo bom e iniciou um discurso enorme sobre normas de segurança e conduta dentro do navio… isso enquanto os passageiros também entravam em cena para nos defender, em um mix de idiomas que tornou a conversa um dialogo de Torre de Babel. Nao teve muita conversa, o oficial pediu que baixássemos o som, explicando que deveríamos seguir o horário do bar e ponto. Como trabalhamos com gente e nao somente com números, fica difícil explicar para uma pessoa com este pensamento que quando uma pessoa esta de ferias em um cruzeiro pelas ilhas gregas, ela nao quer saber se o DJ tem horário, se estamos cansados ou se o bar vai fechar. Ele pagou caro para estar aqui e quer diversão agora e já, pelo menos enquanto seu cérebro e fígado agüentarem. Mas isso tiramos de letra, eu pelo menos escuto essa historia de ter que parar o som ha pelo menos 20 anos, nao importa o idioma, vem sempre da mesma pessoa, a única que nao esta se divertindo com nada, nem com seu trabalho.

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