Trampolim de Rodhes - a quase morte

Quinta-feira, 9/06/2010

Desafio, o trampolim de Rodhes

Ontem foi a melhor noite ate agora. Ja citei isso antes o que êh um bom sinal. As coisas vem melhorando em termos de animação e publico. Na verdade, a temporada européia começa agora, em Junho, quando esta muito mais calor por aqui, principalmente na Grecia. A boite lotou, em sua maioria jovens querendo ouvir alguns hits e muito rock espanhol. Felizmente eu tinha tudo o que eles queriam e com a mudança de diretor, fui obrigado a falar mais vezes ao microfone, dando boas vindas e falando algo com os passageiros, o que tem me ajudado a conhecer melhor o espanhol, tanto as pessoas quanto o idioma. Encerrei a noite as quatro e meia da matina e parti para dormir, pois teria um ensaio com o grupo todo as onze e meia no dia seguinte. Para mim de madrugada. O ensaio para o espetáculo chamado "Radio Celebration" êh mais puxado pois ha vários momentos distintos e muitas entradas com telas e cortinas e algumas mudanças em relação as ultimas semanas, como a entrada de um grande painel de luzes ao final do espetáculo, e tudo isso fica por minha conta, entao ensaios sao super necessários.

Chegamos novamente a Rodhes, cidade que adorei e Florant, o técnico de som, me chamou para darmos umas voltas. Comi e fui para a saída do navio, a chamada Gangway e fiquei aguardando, mas nada do cara aparecer. Neste meio tempo, a turma do ballet começou a sair e alguns me chamaram para ir a praia. Ainda tentei aguardar por Florant mais um tempo mas foi em vao, enfim, mudei o destino e rumamos para a praia. Eu preciso comprar algumas roupas e quero comprar presentes tmb para as pessoas no Brasil, mas hoje foi realmente um dia atípico, nao deu tempo. Caminhamos em grupo por cerca de 15 minutos, fui conversando com a falante Vanessa, que êh a nossa Staff Manager, uma espécie de super gerente na parte de eventos e assuntos artísticos do navio. Ha dez anos trabalhando em cruzeiros, Bane (como êh chamada por todos) êh de Madrid e costuma trabalhar bastante por la em companhias de dança e espetáculos para a TV. Segundo me informou, o mercado de trabalho em Madrid anda meio ruim, dai a razão para ela ter feito mais uma vez o trabalho no navio.

As praias na Grecia sao bem diferentes do Brasil. Quase nao ha areia e sim um solo pedregoso mas o calor êh o mesmo, com o diferencial do vento, que êh constante. Afinal, estamos em Rodhes, uma ilha relativamente pequena no meio do Mar Mediterrâneo. Ficamos em um bar em frente a praia onde rolavam seqüências mixadas de house e deep house, um som hipnótico e delicioso que fazia fundo para a conversa de todos. Quando saímos em grupo, o papo sempre êh engraçado porque todos ficam tentando aprender a língua um do outro a todo instante, o que gera muitas risadas. As espreguiçadeiras no bar da praia de Rodhes sao alugadas a 4 euros por pessoa e pedimos o famoso Mojito da praia, que sai a 9 euros e êh uma delicia, feito com um hortelã que parece colhido na hora. Consegui pegar finalmente um bronzeado europeu respeitável. Enquanto o papo fluía tomamos 4 mojitos cada um, quando veio o convite inesperado… "Vamos nadar ate o trampolim para saltar?". O trampolim da praia de Rodhes êh um ponto famoso, construíram uma plataforma no meio da praia, ha pelo menos uns 300 metros de distancia da areia, como se fosse uma base de saltos em piscina, com escadas e níveis, sendo que na verdade, a pessoa mergulha em mar profundo.

Sinceramente achei que era perto. Olhei da minha cadeira em direção a água e pedi somente que aguardassem eu finalizar meu (quarto) mojito, para enato partirmos. E assim foi, mas quando cheguei a beira da água, vi que a coisa seria um tanto difícil. Com a respiração alterada por conta dos mojitos, confesso que fiquei com medo, porem nao deu muito tempo para senti-lo pois as meninas já estavam na água junto a mais dois bailarinos e me chamando insistentemente em sotaque espanhol de ' careoca frouxo'. Foi neste momento que cometi o ato que todos os idiotas cometem quando estão um pouco alterados pela bebida e sob pressão feminina. Mergulhei no mar e iniciei as bracadas em direção ao tal trampolim. Sabia que seria difícil chegar la mas agora era uma questão de honra (idiota, idiota, idiota). Muitas braçadas foram dadas, eu era o ultimo, havia entrado na água depois… arrisquei olhar para o fundo do mar quando avistei um peixe enorme! Procurei nao pensar em tubarão, senão ficaria com pânico e isso poderia ser fatal. Quando cheguei ao trampolim, achei que se deixasse a boca mais aberta, meu coração saltaria…Felizmente isso nao aconteceu. Ficamos todos na parte mais alta do trampolim, que deve ter uma queda de uns 15 metros ate a água gelada do Mediterraneo. Fiquei ali de cima olhando para as pessoas minúsculas na praia e aquele fundo do oceano, visão possibilitada pela clareza das águas da Grecia e comecei a me perguntar, agora falando em tom de voz para que todos ouvissem, ' o que estou fazendo aqui' ?

Mas nao tinha mais jeito, agora era encarar o desafio ate o final, saltar daquele imenso trampolim ate a água e a parte pior ainda viria, que era o retorno a nado para a praia. Vanessa estava com medo de pular sozinha e pediu que alguém segurasse sua mao. Acho que estava com mais medo que ela e nao quis segurar, dei uma de desentendido e fui para outra ponta, nestas horas prefiro estar sozinho. Eramos 5 a saltar juntos e todos deram as maos, menos eu. Nao queria pensar na possibilidade de um marmanjo daquele me puxando de repente antes de terminar a contagem. "Uno, do, três e…" la fomos, me vi voando pelos ares no meio do mar grego como se fosse um prego jogado na água… quando atingi a superfície, parecia que tinha levado uma paulada na bunda. Pulamos todos em pê, sabia decisão, se aquela porrada fosse na cabeça, o rumo da historia poderia ter sido outro. Havia combinado com um deles que retornaríamos ao trampolim para umas respiradas antes de rumarmos para a praia novamente. Quando subi novamente ao trampolim, vi que fora o único a voltar, todos já rumavam para a praia… Nao tem jeito, nascemos sozinhos, caminhamos sozinhos, embora recebamos ajuda no meio do caminho, mas se formos notar, toda a nossa trajetória na vida êh solitária, êh algo nosso, você cuida de você, nao tem alguém que te auxilie, alias, nao êh preciso, somos titãs se formos olhar para dentro de nos. Temos forca pra dar e vender, embora a maioria nao saiba disso.

Fiquei ali naquele trampolim por alguns instantes, olhando para aquela imensidao azul e transparente. Poder ver todo o fundo do mar com suas enormes pedras, peixes passando pra la e pra ca e aquelas bolhas de ar que vem sei la de onde era algo diferente pra mim, nunca havia entrado em uma água tao transparente como aquela. Antes que o medo me dominasse, olhei para a praia ao longe e procurei me fixar no lado mais curto para chegar ate ela. Agradeci a todos os santos e todas as energias que nos acompanham por estar vivendo aquele momento e disse primeiro para mim e depois para eles que nao morreria em uma praia de Rodhes por ter cometido um capricho idiota. Reuni forcas e me lancei ao mar novamente, desta vez um pouco contra a corrente. Meu cabelo um tanto longo tapou completamente meu rosto mas eu estava determinado em um ponto na paria, um dos prédios e a cada braçada, olhava para o prédio para manter a direcao e seguia em frente. O corpo dava sinais de que nao agüentaria aquela maratona por muito tempo. Eu o respeitei e no meio da travessia, dei uma parada para respirar, fiquei boiando um tempo, mas nao muito para que a correnteza nao me levasse de volta. Reiniciei o trajeto, desta vez nadando bem leve, em alguns momentos, como se diz, de ' cachorrinho' . As pessoas que estavam comigo já haviam chegado a praia e me observavam ao longe. Perceberam que a coisa nao estava tao fácil ali e começaram a me acompanhar na beira da praia. Felizmente fui avançando pouco a pouco e quando meu pê tocou o solo novamente, senti um alivio tao grande que nao consigo descrever aqui. Fico imaginando um naufrago como deve ser terrível passar por algo assim.

Todos comemorarm minha chegada com algumas sacaneadas básicas, êh claro, nao poderia ser diferente e fomos sentar novamente nas espreguiçadeiras do bar em frente ao mar. O próximo mojito teve gosto de vitoria e pedi uma foto, falei com sinceridade que desejava registrar aquele momento, pois ha dez minutos, poderia nem mais estar ali para contar a historia se tivesse dado uma bobeira de cinco minutinhos a mais no mar. Pode parecer exagero mas nao êh. Nao se deve fazer isso. Sem preparo físico anterior, embora eu ate esteja fazendo uma academia no navio, mas nada se compara a uma estirada como aquela, nadando de repente em mar aberto, ainda mais com dançarinos que fazem exercícios e esticadas diárias, isso êh loucura e me prometi nao mais voltar aquele trampolim. Mira-lo da praia já sera o suficiente para mim. O ultimo mojito teve sabor de vitoria e rumamos todos em direção ao centro da cidade, onde comemos alguma coisa e fomos para o navio. A noite seria longa com dois espetáculos e mais a boite para tocar. Amanha estaremos novamente em Hericlon, mas nao poderei descer pois ' tengo color' . Nao entendeu? Leia alguns posts atras sobre o código de cores do navio. Tambem começara a Copa do Mundo, mas no caso, hoje o campeão sou eu!
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